A procissão das almas.

Uma procissão de almas penadas que invade as ruas da cidade durante a noite...
a lenda da procissão dos mortos
" Pombinha e Agripina eram as duas  fofoqueiras mais conhecidas da cidade de Moira.
Pombinha era nascida e criada na cidade. Professora primaria, solteirona por convicção e membro da ordem leiga de Maria, não perdia uma missa. Dedicara sua vida a cuidar da mãe, dos seus alunos e da vida alheia.
Agripina por sua vez sempre fora dona de casa, e quando seu marido se aposentou e resolveu viver no interior, ela achou que morreria de tédio numa cidadezinha pequena como Moira, mas essa impressão se desfez logo que conheceu sua vizinha Pombinha.
Foi amizade a primeira vista! E esta amizade durou mais de 20 anos.
Era comum ver as duas conversando pela manhã, na calçada, cada uma com seu saquinho de pão na mão e um litro de leite. A tarde elas estavam sempre juntas no portão da casa de Agripina aos fuxicos. Pela noite era a mesma coisa, uma na janela e a outra numa cadeirinha na calçada fazendo croche e tagarelando...sempre tinham assunto pra falar e quase sempre era sobre as novidades, as fofocas e o disse-me-disse da cidade.
Se alguem quisesse uma informação sobre quem tinha nascido naquela semana, quem tinha casado, quem tinha casa para vender, quem queria comprar um burro, ou quem tinha pulado a cerca com o vizinho... podia perguntar que elas sempre sabiam responder..ou no minino insinuar a resposta.
Tinha gente com tanta raiva das duas mexeriqueiras que nem passava na calçada que elas moravam, mas também tinha quem se aproveitava da curiosidade das duas velhinhas para espalhar estorias aos quatro cantos... Elas faziam a coluna social da cidade e acabaram se tornando um patrimonio de Moira por causa disso.
Mas um dia Pombinha se foi deste mundo. Teve uma crise de asma e morreu, se tornando assim a fofoca do dia e deixando sua inseparavel amiga Agripina inconsolavel por meses.
Viuva a alguns anos e agora sem sua amiga Pombinha, Agripina quase não tinha mais vontade de sair e conversar com os outros vizinhos, só não perdia o costume de ficar por horas a fio olhando a rua pela janela de sua sala e comprimentando os pedestres que passavam pela calçada
Numa noite muito quente a velha senhora estava na janela a olhar o vazio da rua quando começou a ouvir um burburinho de vozes e uma ladainha entoada ao longe.
De repente eis que uma procissão se apontava lá no começo da rua.
Ficou cismada, não soubera de procissão nenhuma, não tinham dito nada na missa e mesmo agora não ouvira os sinos da igreja tocar para anunciar a procissão como era o costume nessas ocasiões!!!
Mas apesar do seu espanto a procissão tomava forma e ia chegando proximo a sua casa, eram muitas pessoas vestindo roupas brancas e largas, como mortalhas, algumas levavam velas e outram carregavam tochas na mão. Muitos usavam capuz para cobrir a cabeça. Não viu nenhum conhecido e as poucas pessoas que conseguira ver os rostos tinham o olhar fixo num ponto a frente e a expressão perdida enquando entoavam as rezas. Agripina sentiu um calafrio e um medo crescente, quando ia fechar a janela, alguem saido do meio da multidão se aproximou e lhe entregou uma vela. Mal pegou a vela ela avistou uma silhueta quase no final da fila de penitentes que lhe chamou a atenção. Era sua amiga Pombinha, meio perdida e muito assustada, sem carregar vela nem tocha e sendo levada pela mão por um encapuçado.
Tremendo de medo Agripina sentiu o coração gelar quando a cadaverica Pombinha passou perto de sua janela, lhe lançou um olhar de sofrimento e levou o dedo aos lábios num tremulo sinal de silencio.
Agripina correu para dentro de sua casa e passou o resto da noite rezando e chorando até que dormiu. No dia seguinte pela manhã viu que a vela que recebera na noite anterior era o osso de um braço. A imagem da amiga Pombinha na fila de defuntos penitentes nunca mais lhe saiu da lembrança e a velha Agripina não abriu mais a sua  janela para ver a rua nem durante o dia e muito menos a noite pelo resto dos anos que ainda viveu. "

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