A estoria de João Barrão

Um dono de bar que cobrou uma conta mesmo depois de sua morte...

conto do fantasma do bar de joão barrão

" João Barrão era um antigo comerciante da cidade de Moira.
Mais conhecido como Portuga ele era dono do Bar e Mercearia Imperial na rua das Quincas, próximo a prefeitura.
Aqui vamos abrir um parêntese para dizer que o Bar Imperial tinha este nome devido a verdadeira adoração que o João tinha pelas histórias do imperador D. Pedro II. Português dos bons, como João costumava dizer...sem levar em consideração que o antigo imperador nasceu no Brasil.
O bar era no primeiro andar de um grande sobrado de esquina e já tivera os seus dias de gloria quando fora bar e mercearia e por lá passavam quase todos os moradores da cidade; era um dos pontos de encontro da antiga sociedade moriaense.
As senhoras o frequentavam durante o dia para comprar qualquer coisinha que faltasse em casa, marcar em caderneta...saber das fofocas. Já os homens tomavam conta do lugar ao cair da tarde, para uma bebida, um bilhar ...uma conversa...um tira gosto... Era um entra e sai danado naquele lugar!
Mas com a idade avançando no lombo do Portuga, e os mercados e supermercados que apareciam aqui e ali João resolveu acabar com a mercearia e ficar só com o botequim que fora trabalho de toda a sua vida. Dos anos antigos só manteve o costume de fazer sua famosa sardinha na brasa ás quartas feiras.
Foi numa dessas quartas de sardinhada que João Barrão fez a primeira, única e mais profunda inimizade de sua vida: Teco Pascoal.
Teco era funcionário da oficina mecânica do Elias, os rapazes de lá iam sempre ao bar do Portuga nas quartas e nunca ninguém duvidou das contas do português que mesmo assando as peixinhas na brasa não tirava o olho das mesas e sabia o consumo de cada um dos seus fregueses. Mas Teco era metido a esperto e justamente naquele dia na hora de pagar sua parte alegou que a conta estava errada.
Foi uma confusão danada e quanto mais o portugues mostrava a conta, gritava, bufava e invocava seus anos de honestidade com sua freguesia, mais o rapaz batia o pé que não tinha consumido o que o portugues queria cobrar. E pior, já que se a parte dele na conta estava errada, a dos amigos também devia estar!!  O português estava roubando.
O que era certeza de repente começou a virar duvida. E se Teco estivesse certo? Alguns rapazes pediram para Neguinho, o garçon do bar, refazer a conta, mas esse mais atrapalhado que tudo nesse mundo, fez foi embananar mais as coisas dizendo que quem marcava era "Se Jão". Ai o caldo entornou...
Teco Pascoal  tanto fez e reclamou que João, a beira de um infarto e espumando mais que cachorro doido, acabou por expulsa-lo de seu estabelecimento.
- E nunca mais ponha os pés aqui infeliz, um dia tu me pagas...
Para os rapazes da oficina, que sairam no lucro sem pagar um centavo da consumação, a estoria foi motivo de riso durante dias, cada vez que Teco imitava o portugues gritando com a conta na mão era gargalhada certa. Mas para João a historia foi motivo de odio, nunca mais permitiu que nenhum funcionario da oficina entrasse em seu bar e cada vez que via Teco na rua ou em qualquer outro lugar, cobria o rapaz de desaforos.
Alguns amigos do velho butequeiro tentaram fazer com que ele deixasse a coisa pra lá. Ficar xingando e ofendendo o rapaz até na porta da igreja não era bom. Isso já estava pegando mal para  ele próprio que estava ganhando fama de velho doido e inconveniente. Melhor esquecer. Mas nada.
- Não é pelo dinheiro - ele costumava dizer - é pelo desaforo daquele puto!
Mesmo quando a mãe de Teco, cansada dos ataques do velho, foi até o bar e se ofereceu para pagar a conta e colocar uma pedra no assunto o velho não aceitou e botou a mulher para correr.
-Se esconde atras das anáguas da mãe o safardana!!!! Ele não é homem? Que honre as calças e venha me pagar.
O bar começou a ficar mais vazio, João parou de fazer sardinhas nas quarta-feira e foi perdendo o gosto pelo boteco, que agora passava dias fechado. João Barrão entristeceu, deprimiu, ficou doente e depois de anos de reclusão acabou morrendo.
No dia do enterro do pobre portugues, Teco Pascoal bebeu ao velho no Bar da Chica.
- Eu disse que não pagava e não paguei. Ele me pertubou por muito tempo agora que vá se queixar com Deus...ou com o Diabo que o carregue!!!!
Tres dias depois Teco Pascoal morreu!
Infarto fulminate aos 29 anos...
Conta-se que a esposa o encontrou morto, de joelhos e com uma fisionomia de pavor, olhos abertos e boca apertada, todo mijado e com uma nota de 5 contos fechada na mão, a carteira estava aberta e havia varias notas e moedas espalhadas pelo chão...Teco morreu de medo!!!
A história chocou a cidade, e a lenda de que o proprio João Barrão levantou do tumulo para cobrar esta ultima divida ganhou as ruas e deixou muita gente apavorada...
Algum tempo depois um outro comerciante da cidade, cansado de colocar conta no prego, colou um cartaz na parede de seu estabelecimento:
" Discipulo de João Barrão. Fiado nem depois de morto."

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